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    Gilberto Moschetta - konsultoriosm@gmail.com

    Amor e ética em tempos de Covid-19

    Médico Gilberto Moschetta alerta: não há tratamento para Covid. E fala sobre nossas atitudes e responsabilidades enquanto cidadãos

    4 meses atrás

    Foto: apenas ilustrativa/Marcos Serra Lima/G1

Nome estranho para chamar a atenção: em um momento de angústia e medo, o que nos tornamos?

No mundo todo milhares de pessoas têm inúmeras dificuldades para lidar com a doença causada pelo coronavírus. Embarcados na mesma tempestade, profissionais da saúde, pacientes e administradores públicos e privados tentam proteger-se, proteger aos outros e manter funcionando suas empresas, cidades, países. Não tem sido fácil.

Estratégias diferentes estão sendo usadas em várias partes do mundo, e comparações inadequadas apenas aumentam o medo e confusão: a Suécia tem 10 milhões de habitantes, a China cerca de dois bilhões, o Brasil com seus cerca de 200 milhões… Uma cidade como São Paulo tem a população de todo um país como a Áustria. Características de sistemas públicos de saúde, estado prévio de imunidade da população, idade, densidades demográficas diferentes, tudo motivo para taxas de mortalidade e infecção diferentes.

NÃO HÁ TRATAMENTO ESPECÍFICO PARA COVID. Pare de encaminhar e reencaminhar mensagens e vídeos de curas prometidas e discursos vazios. Pare de brigar por tratamentos indicados por interesseiros, políticos e vizinhos. Um dos poucos países onde cloroquina foi indicada para tratamento foi o Brasil, motivado unicamente por disputas políticas de poder.  Diversas pesquisas já mostraram que o tratamento com esta droga não muda evolução dos pacientes, não importa o que dizem ministros ou deputados.

Pessoas doentes estão assustadas, angustiadas com o isolamento necessário, deprimidas com a ausência de contato humano. Nosso preconceito com elas apenas aumenta sua dor. Não interessa a ninguém saber nome, profissão ou endereço de pessoas doentes, nem de Covid-19 nem de nenhuma outra doença. As medidas de isolamento e distanciamento social se aplicam a todos, se a doença é transmitida a partir de contato próximo, não há risco algum para vizinhos, moradores da rua ou da quadra. Os contatos de risco serão abordados pela vigilância epidemiológica da Secretaria da Saúde.

Não é correto, não é ético e não é moralmente certo intervir na privacidade de pessoas doentes ou sãs. Afinal, é certo divulgar também as pessoas portadoras de doenças sexualmente transmissíveis? Quem sabe as boates divulgam o nome dos frequentadores?

Profissões de risco, como profissionais de saúde e motoristas, estão expostos justamente para permitir que a sociedade funcione o mais normalmente possível. Críticas, ofensas e agressões mostram o caráter de quem ofende, e não diminuem a necessidade do trabalho deles. Pense bem antes de postar mensagens agressivas nas redes sociais.

É fácil apontar o cisco nos olhos alheios, difícil é tentar entender as dificuldades enfrentadas pelos outros. Se você não tem nada de bom para fazer ou falar, então fique em silêncio. Não vá à missa ou culto falando em amor e pedindo perdão para depois tornar-se um agressor preconceituoso. Trate com humanidade os doentes e os sãos, trabalhadores e idosos, isolados ou essenciais, e torça muito para que ninguém passe pelo sofrimento da doença ou da morte.